Quase automaticamente, Valentino Garavani costuma ser lembrado pelo vermelho que leva seu nome. Mas reduzir sua contribuição à moda a uma única cor é ignorar a dimensão real de um criador que ajudou a redefinir o luxo contemporâneo, tanto no aspecto estético, quanto no cultural.
Pouco se fala, por exemplo, sobre o quanto Valentino foi estratégico ao compreender o poder da imagem antes mesmo da moda se tornar um espetáculo midiático global.

Valentino Garavani com Natalia Vodianova, Natalie Imbruglia e Eva Herzigova, em 2008 (Créditos: Getty Images)
Nos anos 1960, enquanto muitos estilistas ainda dependiam exclusivamente da imprensa especializada europeia, ele investia na relação com celebridades e figuras políticas, entendendo que vestir Jacqueline Kennedy Onassis não era apenas uma escolha estética, mas um gesto político e simbólico.
O guarda-roupas criado para Jackie após a morte de JFK consolidou Valentino como um costureiro do silêncio elegante. Era como se o estilista se colocasse na posição de vestir os momentos históricos sem jamais competir com eles.
Outro aspecto pouco revisitado é sua resistência às rupturas radicais. Em décadas marcadas por revoluções estéticas, como o minimalismo dos anos 1990, Valentino manteve-se fiel à alta-costura como exercício máximo de disciplina e técnica.
Enquanto alguns consideraram o ato conservador, na verdade, o estilista quis mostrar que foi um claro posicionamento. Ele optou por refinar em um mercado cada vez mais acelerado, e sua insistência no tempo da criação tornou-se, ironicamente, um ato de vanguarda.

Vestido do segundo casamento de Jackie Kennedy Onassis (Créditos: Reprodução)
Também é subestimada a habilidade empresarial do estilista. Valentino entendeu cedo que a longevidade de uma maison dependia de estrutura, e não apenas de talento.
Diferentemente de criadores que se perderam em expansões desordenadas, ele construiu uma marca coerente, onde perfumes, acessórios e licenças dialogavam com o mesmo imaginário de elegância clássica. Ao se aposentar, deixou uma casa preparada para sobreviver sem ele, um feito considerado raro na história da moda autoral.

Valentino, Alta-costura 2022 (Créditos: Getty Images)
Há ainda o Valentino menos glamouroso, mas igualmente relevante. Um homem que formou gerações de artesãos e costureiras, preservando técnicas que hoje resistem com dificuldade à lógica industrial. Em seus ateliês, por exemplo, o bordado era linguagem, narrativa e respeito ao fazer manual. E num momento em que a moda redescobre o valor do trabalho artesanal, vale lembrar que Valentino nunca precisou reaprender essa lição.
No fim, talvez sua maior contribuição tenha sido provar que elegância não precisa ser barulhenta para ser poderosa. Em tempos de excesso, Valentino Garavani construiu uma obra baseada em contenção, rigor e beleza duradoura. Certamente, isso é o que faz um verdadeiro clássico atravessar gerações sem pedir permissão ao tempo.


















