Na música brasileira, poucos trabalhos conseguiram soar tão locais e tão universais ao mesmo tempo. Quando Chico Science e a Nação Zumbi lançaram o disco Afrociberdelia, em 1996, o Brasil estava dividido entre o rock dos anos 80 e uma MPB mais tradicional. O movimento manguebeat já tinha se consolidado com o primeiro disco do grupo (Da Lama ao Caos), mas foi em Afrociberdelia que o maracatu com psicodelia ganhou o mundo.

Imagem: Capa do CD Afrociberdelia/Chico Science & Nação Zumbi
O disco faz 30 anos e parece ter sido feito ontem. Não só pela mistura de maracatu, hip hop, dub e música eletrônica, mas pela maneira como tudo soa orgânico. A banda não está preocupada em “misturar ritmos brasileiros com modernidade”. Faixas como “Manguetown”, “Macô” e a regravação de “Maracatu Atômico” de Jorge Mautner, os tambores conversam naturalmente com guitarras e bases eletrônicas. A produção de Bid amplia o universo do primeiro álbum e talvez sejam as alfaias mais bem gravadas em estúdio
Isso sem falar nas letras e composições de Chico Science. O caos urbano, o avanço das tecnologias, o colapso ambiental e a sobrevivência nas periferias continuam atuais. Chico enxergava o Brasil como um lugar, ao mesmo tempo ancestral, futurista e cunhou o termo “Afrociberdelia”: mistura de África, tecnologia e psicodelia em uma palavra.
O disco foi o último álbum gravado por Chico Science antes de sua morte precoce em 1997, aos 30 anos. Ainda assim, o que fica em Afrociberdelia não é um sentimento de despedida, mas de expansão. A Nação Zumbi segue em turnê-homenagem ao álbum tocando na íntegra, trazendo “Rios e pontes no coração, Pernambuco embaixo dos pés e a mente na imensidão”. Chila, Relê, Domilindró!
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