Há coisas que só percebemos quando correm o risco de deixar de existir. A liberdade é uma delas. A possibilidade de discordar, questionar, reivindicar e escolher quem ocupa os espaços de poder parece que sempre fez parte da nossa vida. Mas basta olhar para a história para perceber que nada disso surgiu espontaneamente.

Foto: Marcelo Prates
A democracia, como a conhecemos hoje, assim como a liberdade, é resultado de séculos de conflitos, ideias e transformações. O direito de participar das decisões coletivas nunca veio como presente de governantes generosos; foi conquistado por movimentos sociais, mobilizações populares e gerações que questionaram o poder.
No Brasil não foi diferente. Desde 1889, quando houve a Proclamação da República – motivo do feriado do próximo dia 15 de novembro –, atravessamos crises políticas, escândalos de corrupção, momentos de polarização e lidamos com promessas descumpridas, desigualdades e serviços públicos ineficientes.
Aí que nasceram na população dois dos sentimentos que mais mexem com a democracia: a decepção e o descontentamento.
É legítimo desconfiar. É necessário cobrar. Democracia não significa concordar com tudo, muito menos conceder um cheque em branco a quem vence uma eleição.
Também significa reconhecer que as decisões políticas não ficam restritas aos discursos dos comícios ou às discussões nas redes sociais.
Democracia de verdade chega às escolas, aos hospitais, ao transporte público, à preservação ambiental, ao emprego, à segurança e às oportunidades disponíveis para diferentes grupos da sociedade.
Por isso, o voto merece ser lembrado para além das eleições. Cada ampliação dos nossos direitos e cada período de restrição política demonstra como essa fronteira é fraca.
Sozinho, o voto não resolve todos os problemas de um país, nem garante bons governantes. Por isso que a democracia exige mais do que apertar algumas teclas a cada eleição.
Ainda assim, há força em um gesto tão rápido. Em algumas horas, pessoas com diferentes perspectivas começam a dar luz a decisões que vão afetar diretamente o futuro de todo mundo.
Esse é o ponto que a história insiste em relembrar. A democracia nunca foi uma obra concluída. Se tantos lutaram para ampliar o direito de escolher algo democraticamente, não podemos fazer disso um ato dispensável.


















