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Parceria entre prefeitura e centro universitário muda a vida de mulheres vítimas de violência

O projeto oferta graduação gratuita


Aos 17 anos, a estudante Agnes Arcanjo passava por situações que milhões de mulheres ao redor do país passam todos os dias: um relacionamento abusivo, uma saúde mental cada vez mais deteriorada e um presente que não parecia dar espaço a um futuro. Nas palavras de Agnes, ela só “vivia o agora e, no ‘agora’, não havia esperança”. A mudança começou a acontecer na vida da jovem a partir do apoio socioassistencial oferecido pela Prefeitura de Manaus.

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Foto: Diego Lima/Semasc

“Eu estava em um momento em que me encontrava em um estado de depressão e ansiedade muito profundo. Minha mãe sempre me amparou, então, quando percebemos que precisávamos de ajuda profissional, ela procurou a ajuda de conhecidos que nos indicaram o centro de referência”, explicou.

Foi a partir desse momento que Agnes e sua família passaram a ser acompanhados pelo Centro de Referência dos Direitos da Mulher (CRDM), equipamento socioassistencial da Prefeitura de Manaus, administrado pela Secretaria Municipal da Mulher, Assistência Social e Cidadania (Semasc), recebendo atendimento psicossocial e outros serviços.

Também foi nesse mesmo espaço em que, após dois anos de acompanhamento contínuo, Agnes foi selecionada para participar do programa “Ser Mulher”, uma iniciativa do grupo Ser Educacional, mantenedor dos centros universitários e universidades privadas Uninorte, Uninassau e Unama, que garantiu o acesso a bolsas integrais de graduação digital a 90 mulheres vítimas de violência doméstica ao redor do país.

A parceria firmada entre a gestão municipal e o grupo garantiu com que Agnes e outras sete mulheres atendidas pelo CRDM, e que correspondiam aos requisitos do projeto, pudessem ter acesso ao ensino superior, possibilitando uma nova história para suas vidas.

“Foi como um abraço para mim. Se não fosse pelo trabalho realizado pela equipe do CRDM, talvez eu não estivesse aqui hoje, muito menos cursando minha primeira graduação. Eu sempre desejei fazer uma faculdade, mas nunca tivemos condições, então quando essa oportunidade apareceu, principalmente depois de tudo, eu senti que precisava agarrá-la, não importava quais fossem os desafios que viriam junto”, destacou Agnes, agora acadêmica do curso de Análise e Desenvolvimento de Sistemas.

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Foto: Diego Lima/Semasc

Trabalho que muda vidas

De acordo com a diretora do Departamento de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher da Semasc, Marley Santos, o Termo de Cooperação Técnica assinado pela secretaria e o grupo Ser Educacional demonstra, de maneira exemplar, o trabalho realizado pela gestão municipal e instituições parceiras, para que sobreviventes de violência doméstica recebam não apenas o atendimento necessário no momento em que o buscam, mas para que também possam ter novas oportunidades.

“Acreditamos que o acesso à educação muda vidas, que pode ser uma chave para a superação de um ciclo de violência. Poder incluir algumas de nossas usuárias em um programa como o ‘Ser Mulher’ é extremamente gratificante, pois reforça o empenho da prefeitura em firmar parcerias que visem o bem-estar e o desenvolvimento pessoal dessas mulheres”, afirmou.

Para a coordenadora de curso da Uninorte, Jéssica Oliveira, a parceria também demonstra o contínuo compromisso social da instituição, ressaltando a atenção do centro universitário para pautas socialmente relevantes.

“Infelizmente, nosso país possui um histórico cultural de invisibilização de mulheres e de suas demandas, o que torna a violência contra a mulher uma pauta urgente e que carece de um olhar mais atento e acolhedor por parte da sociedade. Nosso programa nasce dessa necessidade, pois é uma forma de mostrar que essa é uma causa de grande importância para a Uninorte e outras instituições que fazem parte do grupo Ser Educacional”, explicou.

Novos horizontes

Com um novo capítulo se iniciando em sua vida, Agnes afirmou quase não se reconhecer ao se olhar no espelho e pensar naquela garota de dois anos atrás, tão tímida e calada. Para a sua mãe, a dona de casa Valcicleia Arcanjo, a mudança é nítida para todos ao seu redor.

“Ela não conseguia falar com ninguém, não conseguia se expressar e no início eu não conseguia entender o que estava acontecendo. Quando percebi que poderia perder minha filha, corri atrás de toda a ajuda possível, então ver ela conversando, ver ela feliz, para mim, é uma vitória. Tudo o que está acontecendo agora é uma vitória”, afirmou.

Responsável pelo acompanhamento de Agnes no CRDM, a psicóloga Doralice Costa vê na jovem um grande exemplo de como o trabalho realizado pelos profissionais da rede proteção do município tem a capacidade de mudar e até de salvar vidas.

“A Agnes chegou no equipamento e, simplesmente, não conseguia falar durante as primeiras sessões. Era uma jovem muito retraída, angustiada. Depois de conquistar sua confiança e trabalhar com ela durante todo esse tempo, ver ela superando todos os sofrimentos e angústias que a atingiam é muito emocionante para mim. Ela respondeu muito bem ao processo que desenvolvemos com ela e isso mostra o que fomos e o que somos capazes de fazer”, destacou.

Relembrando tudo o que passou até chegar onde se encontra hoje, Agnes enxerga com muito mais otimismo aquilo que acredita ser o seu futuro. Ainda que se sinta nervosa ao enfrentar cada novo desafio que a vida acadêmica lhe propõe, a jovem enfrenta, agora, as adversidades de uma forma diferente.

“No começo foi difícil e assustador, mas sempre que as coisas parecem complicadas eu penso que cheguei até aqui e fiz por merecer essa oportunidade. Antes, eu não via um futuro pela frente, mas, hoje, eu sei que há muito mais a se fazer e muito mais pelo que lutar, seja por mim, pela minha mãe ou por todos que me apoiaram neste caminho”, concluiu a estudante.

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