Antes de ser Belchior, Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes foi seminarista, estudou medicina e deixou o Ceará para tentar a vida como músico no Rio de Janeiro. Depois de se tornar um dos compositores mais importantes do país, fez o caminho inverso: afastou-se dos palcos, abandonou bens e carreira e passou anos longe da vida pública.
É entre esses dois movimentos que se estrutura “Alucinação”, série dirigida por Eduardo Albergaria e exibida semanalmente pelo Canal Brasil. Inspirada no livro “Belchior: Apenas um Rapaz Latino-Americano”, de Jotabê Medeiros, a produção evita o óbvio das cinebiografias e vai e volta no tempo, colocando lado a lado o jovem que desejava se transformar em artista e o homem que, décadas depois, se esforçava em se desfazer de sua persona artística.
Caian Zattar e Luiz Carlos Vasconcelos interpretam essas duas fases sem buscar apenas a semelhança física: Zattar encontra a inquietação do jovem Antônio Carlos, enquanto Vasconcelos constrói um Belchior maduro, cansado e cada vez mais difícil de decifrar.
A pergunta “onde está Belchior?”, que durante anos alimentou reportagens, memes e especulações, interessa menos do que outra: o que levou alguém que lutou tanto para ser ouvido a escolher o silêncio? Os quatro episódios aproximam vocação e renúncia, sucesso e fuga, construção e desconstrução.
Curiosamente, a série não pode recorrer livremente às suas canções por questões de direitos autorais. No ano em que o disco “Alucinação” completa 50 anos, a limitação acaba dialogando com o próprio personagem e procura Belchior nas conversas, nos gestos, contradições e no silêncio.

Fonte: Canal Brasil
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