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Cultura

Espetáculo ‘Casa D’Água’ revisita a grande enchente de 1953 e memórias da Amazônia

Montagem da Arte&Fato, a ser apresentada nos dias 25 e 26 de setembro em São Paulo, entrelaça história, ficção e imaginário amazônico para narrar a sobrevivência de uma família durante a cheia do Rio Amazonas


A Associação dos Artistas Cênicos do Amazonas – Arte&Fato, a Fundação Nacional de Artes (Funarte) e o Ministério da Cultura apresentam “Casa D’Água”, espetáculo teatral de drama com dramaturgia e direção de Douglas Rodrigues, em parceria com Leonel Worton. A montagem revisita a grande enchente de 1953, um dos episódios marcantes da história da Amazônia, para abordar memória, deslocamento humano, abandono e as transformações sociais provocadas pelo ciclo da borracha.

Fotos: Ranyere Frota

A circulação começa em São Paulo, com apresentações em 25 de setembro, no Teatro Elis Regina, em São Bernardo do Campo, e em 26 de setembro, no Centro Cultural São Paulo (CCSP), na capital paulista.

A dramaturgia de Casa D’Água parte de acontecimentos históricos que antecedem a enchente de 1953. Em 1943, uma das maiores secas enfrentadas pelo Nordeste brasileiro contribuiu para o alistamento compulsório de milhares de nordestinos que encontraram na chamada “Batalha da Borracha” uma possibilidade de sobrevivência diante da crise no sertão. Mais de 100 mil homens foram mobilizados para a Amazônia como “soldados da borracha”, destinados ao trabalho de extração do látex.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, também terminou a demanda comercial que havia impulsionado a produção da borracha amazônica. A expansão da borracha sintética contribuiu para o declínio da atividade e para o abandono de milhares de trabalhadores que, após o término dos contratos, não tiveram cumprida a promessa de retorno às suas famílias.

Muitos desses trabalhadores permaneceram na Amazônia sem condições para reconstruir suas vidas ou se integrar à capital do Estado, espalhando-se pelos rios e comunidades da região. Dez anos depois, em 1953, as águas avançaram sobre a Amazônia e passaram a ocupar o centro da narrativa do espetáculo.

Fotos: Ranyere Frota

Enredo

Em “Casa D’Água”, uma casa flutua em meio à enchente histórica do Rio Amazonas. Dentro dela, mãe, filha e um homem vivem encurralados pela chuva incessante, pela subida das águas e pela precariedade de um pequeno casebre de dois cômodos. Conforme o rio avança, novos assoalhos e marombas precisam ser construídos para manter a família acima da água.

Entre as inúmeras palafitas às margens dos rios, uma permanece solitária, amarrada a um tronco frondoso por um fio de sisal. Ao longe, um barco fantasma atravessa o rio sem ser afetado pelo caos, como se pertencesse a outra realidade. A família observa a embarcação e deseja partir, mas permanece aprisionada pelas águas.

Fotos: Ranyere Frota

A enchente também invade o espaço de trabalho do homem. Com o matadouro tomado pelas águas, ele é obrigado a improvisar o abate dos animais dentro da própria casa. Munido de terçado e porrete nas mãos, ele desmancha os animais enquanto os sons do trabalho ecoam pelo ambiente. O sangue atravessa as fissuras das tábuas e se mistura às águas barrentas do Amazonas. Entre um desmanche e outro, ele visita a filha.

A partir de depoimentos, jornais, relatos de ribeirinhos e elementos do imaginário lendário amazônico, “Casa D’Água” entrelaça realidade e ficção para construir um drama dos rios amazônicos. A obra revisita uma Amazônia marcada pelas grandes águas, pelo deslocamento humano, pelo abandono e pelas transformações sociais provocadas pelo ciclo da borracha.

A montagem também estabelece um diálogo com determinadas visões consolidadas na literatura brasileira sobre o imaginário amazônico, entre elas referências associadas a Câmara Cascudo, propondo uma perspectiva construída a partir das experiências e memórias da própria região.

A dramaturgia nasce ainda de uma memória pessoal de Douglas Rodrigues, construída a partir de sua relação com os rios amazônicos e de uma infância em que a água fazia parte da vida cotidiana. “Na aldeia da minha infância o tempo todo se podia ir ao rio. No quente verão ou debaixo da forte chuva, as crianças viviam ensopadas dentro d’água. Não era mistério para nós. Nada supera a beleza dos rios da minha terra”, comenta ele. É dessa reminiscência que surge outra frase que atravessa a criação. “Os igarapés da minha infância já não existem mais”, complementa.

Na montagem, a água assume diferentes sentidos: é fonte de sobrevivência, ameaça, isolamento e também metáfora daquilo que permanece enquanto outras paisagens, memórias e modos de vida desaparecem.

“Casa D’Água” integra o projeto Ações Continuadas 2025 – Teatro, da Fundação Nacional de Artes (Funarte). A nova obra amplia o repertório da Associação dos Artistas Cênicos do Amazonas – Arte&Fato e reafirma uma trajetória de 25 anos de atividades ininterruptas, fortalecida pelo prêmio plurianual.

O projeto oferece subsídios para a manutenção de um trabalho artístico continuado, contribuindo para a produção teatral da instituição e para a circulação e afirmação do teatro produzido na região Norte em âmbito nacional.

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