É curioso pensar como um filme de 1962, de proporções gigantescas, filmado em 70mm no deserto da Jordânia, concebido para telas grandes e com quase quatro horas de duração, ainda consegue prender a atenção do início ao fim sem perder a força, seja na TV ou mesmo no celular. Estamos falando de Lawrence da Arábia que estreou na Netflix e continua diversão pura.

Créditos: IMDb
Inspirado no livro autobiográfico de T.E. Lawrence, o filme acompanha a atuação do oficial britânico na Revolta Árabe contra o Império Otomano durante a Primeira Guerra Mundial e o diretor David Lean (Doutor Jivago, A Ponte do Rio Kwai) transforma um episódio histórico complexo em uma jornada mítica, misturando aventura, política e um intenso retrato psicológico do personagem.
O ator Peter O’Toole faz um dos trabalhos mais sofisticados do cinema clássico de Hollywood amparado pela direção firme de David Lean e pelo roteiro afiado de Robert Bolt. Lawrence é, ao mesmo tempo, carismático e deslocado, sem pertencer a lugar nenhum. Ele fala demais, desobedece pequenas ordens e demonstra uma curiosidade quase ingênua pelo deserto.
A transformação começa quando Lawrence atravessa o deserto e a jornada funciona como rito de passagem. O inglês frágil vai se convertendo num líder de contornos messiânicos, e cada vitória traz junto uma fissura moral. O roteiro constrói um arco perturbador no qual ele descobre que não apenas é capaz de matar, mas sente uma excitação com isso.
Nem todo o prestígio, porém, blindou o filme de questionamentos. Historiadores apontaram a forma como certos eventos militares e políticos são simplificados para favorecer o arco heroico do protagonista. Países como a Jordânia chegaram a proibir a exibição do filme por considerarem sua representação da cultura árabe desrespeitosa.
Apesar das arestas, o lugar de Lawrence da Arábia no pódio dos clássicos é inabalável. Diretores de diferentes épocas citam o filme como influência, seja pela ousadia visual, seja pela maneira de contar uma história íntima dentro de uma moldura gigantesca. Agora, na chegada ao streaming, funciona como um convite para as novas gerações descobrirem essa experiência.
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