O Último Azul, sucesso nos cinemas no ano passado, agora em cartaz na Netflix é o tipo de filme que te pega pela mão e não solta mais. Dirigido por Gabriel Mascaro, o filme se passa num Brasil distópico em que o governo decidiu mandar todo mundo com mais de 75 anos para colônias isoladas sob o pretexto de uma “velhice digna”. A protagonista é Tereza, uma mulher de 77 anos, belamente interpretada por Denise Weinberg, que recebe essa ordem e, em vez de aceitar passivamente, decide fugir pelos rios da Amazônia.

Créditos: Desvia (Brasil) e Cinevinay (México)
Enquanto Tereza navega por igarapés e encontra personagens surpreendentes, incluindo uma participação marcante de Rodrigo Santoro, a trama mistura crítica social com um toque de realismo mágico que, às vezes, lembra mais uma fábula do que um drama pesado.
A distopia ou ficção especulativa com crítica social é um gênero pouco explorado no Brasil mas temos dois exemplos bem sucedidos: Medida Provisória (2020), dirigido por Lázaro Ramos, no qual um governo autoritário decide que todos os negros brasileiros devem ser deportados para a África e Bacurau (2019) de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, que mistura gêneros (como faroeste e ficção científica) para construir uma crítica feroz ao abandono e à violência institucional contra comunidades marginalizadas.
Um dos grandes acertos do filme está na performance de Weinberg. Ela constrói Tereza com uma energia que desmonta visões ultrapassadas sobre o envelhecer. Não há fragilidade nem resignação. O que se revela em cena é uma mulher movida por um impulso genuíno de viver, potencializado por paisagens amplas e exuberantes da Amazônia, que funcionam como contraponto direto às estruturas burocráticas e opressoras empenhadas em decidir quem pode, ou não, exercer a própria liberdade.
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