Em uma madrugada, acho que era… as noites são longas tendo a Covid-19 como adversária, e o ‘covideiro’ não consegue dormir porque falta ar e a tosse é inclemente. É quando você se apaixona, perdidamente, pela VNI (Ventilação Não Invasiva), graças a Deus, que, para funcionar, na bucha, a pessoa tem que estar deitada de barriga para baixo, que o corpo clínico e o doente, chamam de ‘pronado’, para o ar ventilar o pulmão. E foi nesse momento que vieram as minhas dúvidas sobre meus valores de vida. Qual a verdadeira necessidade de ir ao Rio de Janeiro, exatamente no dia 8 de setembro? Ok. Niver da Helena, minha neta. Quando meus filhos me questionaram sobre a viagem, fiquei uma fera. Virou, para mim, ponto de honra. E eu, simplesmente, já estava estranha, garganta coçando, nariz escorrendo, corpo pesado e, pasme, sem vontade de viajar. Como eu iria para o aniversário da minha neta, sem estar legal? O pensamento, na madrugada, continuou. Gente, fui, sim, para o café da manha da neta carioca, mas toda encapotada, num Rio 40º. Atravessei quilômetros, entre Manaus e Rio de Janeiro, de avião, para não carregar a minha linda Helena no colo, não me senti à vontade de estar ali. No fundo, a minha verdade dizia: ‘você está doente, lesa!”. Mas, a minha superioridade física retrucava: “estou nada. Fiz quarentena, poxa!”. E o pior, como não pensei que, indo e vindo, eu estava contaminado, com o vírus, as pessoas? Aí, do nada, madrugada para quem tem corona, o pensamento vem do nada, pensei, nessa hora, na minha mala. Fechada. Intocável, porque cheguei sem condição de abrir uma porta, quanto mais uma mala. Se morresse, a quem interessar possa a tal maleta? Tudo fica. Tudo, minha gente! Olhei para a janela do apartamento do hospital. Estava amanhecendo, uma enfermeira me deu algo para tomar, aplicou uma injeção e, admirada, disse baixinho: “Está chorando? A senhora vai sair dessa!”. Respondi assim: “Mana, preciso reconfigurar os meus verdadeiros valores de vida. Se Deus me der essa oportunidade…”.

 

TERÇA-FEIRA

ATO 3 – SEXO

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